Álbum de Família (August: Osage County. 2013)

album-de-familia_2013Por: Eduardo Carvalho.
album-de-familia_sam-shepard-e-meryl-streepViolet Weston, viciada em pílulas. Beverly Weston, viciado em álcool. Em seus primeiros diálogos na tela, sobram alfinetadas e amarguras. No dia seguinte, Beverly some. Encontrado morto dias depois, torna-se motivo para a reunião da família.

Álbum de Família mostra uma família disfuncional, no calorento meio-oeste americano, em que cada membro mostra suas garras, quando se reencontram por conta do desaparecimento do pai. Em permanente estado de pé de guerra, as três filhas do casal se ressentem da dureza da mãe; uma das filhas encontra-se em conflito com o marido, enquanto a filha deles tenta lidar – à sua maneira – com o casamento fracassado de ambos; personagens em crise constante, tentando estabelecer-se como indivíduos, enquanto mal cumprem seus papéis sócio-familiares.

O público vê tais situações todos os dias na tela da TV. Não por acaso, o diretor John Wells vem de seriados como ER e West Wing. No entanto, os diálogos ácidos e certeiros, cheios de rancor e demais afetos, mal caberiam na tela da televisão. O filme é uma adaptação da peça de Tracy Letts, August: Osage County, sucesso da Broadway e vencedora do Pulitzer, feita pelo próprio autor em colaboração com John Wells. Ambos trabalharam por meses na transposição do texto, e parece que Letts não fez questão de esconder seu tom autobiográfico. Seu avô realmente teria se afogado, e sua avó viciou-se em pílulas.

album-de-familia_2013_personagensMas não bastariam a força dos diálogos e da estória para que o filme funcionasse. É certo que a obra fisga o público pela identificação deste com seus próprios históricos familiares – a competição dos filhos pelo amor dos pais, traições, mentiras e segredos, são elementos comuns em famílias numerosas. Álbum de Família atinge ainda mais pelo trabalho de todo o elenco, que dá vida e a intensidade necessárias ao texto de Letts. Chris Cooper, sempre um coadjuvante de luxo, protagoniza a hilária cena da oração à mesa de jantar, de onde resultam risos mal contidos da plateia. Juliette Lewis faz com rara felicidade a mulher sonhadora, fácil de ser iludida pelo “namorado da ocasião”, nas palavras de uma das irmãs. Julianne Nicholson, a filha que “escolheu” ficar próxima aos pais, tem nos conflitos íntimos da personagem a maior força do papel. Sam Shepard, no pequeno e marcante papel que lhe coube, dá mostras de seu grande talento.

album-de-familia_julia-roberts-e-meryl-streepPorém, os grandes destaques não poderiam ser outros. Uma desglamurizada Julia Roberts faz Barbara Weston, a filha que, em face do esfacelamento da família – e como a favorita do pai morto – tenta ficar à frente da situação. É tão dura quanto a mãe, com quem trava grandes embates verbais – e não verbais. E Meryl Streep, especializando-se em mulheres detestáveis, mantem-se no topo do panteão das grandes atrizes. Dificilmente uma atriz emenda duas grandes atuações em sequência – como esquecer sua Dama de Ferro? –, mas Streep é a exceção que confirma a regra. A complexidade de sua Violet, amargurada e ressentida pelo desdém das filhas, pela morte do marido e pelo tratamento de um câncer, torna a matriarca digna de raiva e compaixão por parte do público. E consta que ela não queria o papel…

Tantos talentos reunidos resulta em um dos grandes filmes americanos de 2013.

Álbum de Família (August: Osage County. 2013). EUA. Diretor: John Wells. Elenco: Meryl Streep (Violet Weston), Sam Shepard (Beverly Weston), Julia Roberts (Barbara Weston), Julianne Nicholson (Ivy Weston), Juliette Lewis (Karen Weston), Abigail Breslin (Jean Fordham), Chris Cooper (Charlie Aiken), Ewan McGregor (Bill Fordham), Margo Martindale (Mattie Fae Aiken), Dermot Mulroney (Steve Huberbrecht), Benedict Cumberbatch (Little Charles Aiken), Misty Upham (ohnna Monevata). Gênero: Drama. Duração: minutos. Baseado em Peça Teatral de Tracy Letts, que também assina o Roteiro do Filme.

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O Voo (2012). Anjo ou Demônio no Comando Daquele Avião?

o-voo_2012O Diretor Robert Zemeckis sem dúvida nenhuma merece o crédito maior em “O Voo“. Muitos aplausos por me deixar quase em suspense ao longo do filme. Eu digo “quase” porque não poderia ficar indiferente ao drama maior dessa história: o alcoolismo e o vício por drogas como a cocaína. Primeiro que quando se conhece pessoas que sofrem dessa doença, arrastando para esse vendaval familiares e amigos, fica difícil não oralizar algumas interjeições. Depois, por levar sem pressa esse “day after” na vida desse que apesar de todos os pesares conseguiu salvar dezenas de vidas inocentes. Também porque não deu para segurar as lágrimas no finalzinho.

Agora, a turma de elenco vem logo atrás nesse merecimento: performances excelentes. A destacar: Denzel Washington, Don Cheadle, Kelly Reilly, John Goodman e Bruce Greenwood. Tirando a personagem feminina, os demais orbitando no problema do personagem do Denzel. Sendo que, enquanto dois deles iriam tentar atenuar, ou até tentar inocentar, o terceiro era o que alimentava o problema do protagonista. Mas também estava em jogo o emprego de muita gente. Pois é! Não tinha apenas álcool e cocaína como vilões dessa história. Tinha também uma companhia com aviões que já deveriam ter virado sucata e um dono querendo se livrar desse elefante branco. Colocando mais lenha nessa fogueira.

O comandante Whip Whitaker (Denzel Washington) mesmo ciente que ainda teria um voo para fazer passa a noite bebendo e cheirando. Que para piorar usa a droga para acordar de vez. Ciente que é muito bom no que faz, faz uma loucura para tirar a aeronave do meio de uma tempestade, com isso forçando ainda mais a máquina. Num voo longo, bate a sede por uma bebida, o cansaço e o sono. Daí não pesou também a falta de experiência do co-piloto. Existem fatalidades. Assim como há também propabilidades de algo que começou errado, terminará errado. Mas existe também aqueles que funcionam bem sob forte pressão. E foi o que Whip fez tornando-se um herói, a princípio.

Mas um acidente dessa monta atrai investigações de todos os lados. Entrando em cena o responsável pelo sindicato Charlie (Bruce Greenwood), amigo de longa data de Whip. Ciente de que uma condenação para Whip atrairia uma avalanche de pedido por indenizações, contrata um grande advogado, Hugh (Don Cheadle). Esse, mesmo sendo bom no que faz sabe que terá um outro desafio: o de conseguir levar um Whip limpo perante a personagem de Melissa Leo, um osso duro de roer. Numa de “os fins justificando os meios”, Charlie e Hugh farão algo inimaginável até então.

Ainda no hospital Whip conhece Nicole (Kelly Reilly), que também por um “milagre” não perde a vida, mas em uma overdose. Nasce uma empatia entre os dois. Ele a convida para morarem juntos. A princípio, ela recebe como uma dádiva: ter onde morar. Mas para alguém que quer sair do vício, termina sendo um inferno. Ela não tem forças para nem para resistir, nem para ajudá-lo a sair dessa. Até porque Whip tem fornecedor “à domicílio”, o Harling, personagem do sempre ótimo John Goodman. Que abstraindo o que Harling representa, sua performance me levou a rir.

A pessoa mais fascinante que eu jamais conheci.”

Não sei se pode-se definir como regra geral que os que mais fazem loucuras exercem um fascínio maior aos demais. Se o carisma em parte vem pela ousadia. Mas que diante de uma tragédia onde o vício esteve como coadjuvante o que dizer, por exempplo, pelo “tapinha” que aspirou para deixá-lo ligadão? Claro que assustou vendo-o fazer isso e ciente do que estaria para acontecer. Mas se é algo não raro fora da ficção, fica a pergunta do porque fazem isso. Duas pessoas podem vivenciar as mesmas pressões, mas uma não procura amparo no vício.

Outro ponto alto de “O Voo” é que embora a história mostre que muitos acreditarão que fora um milagre, ou até que mesmo por linhas tortas foi obra de Deus colocar aquele competente piloto salvando a vida de muitas pessoas, Zemeckis mantém-se imparcial ao mostrar os fatos. Com isso crédulos e céticos terão as respostas que queriam. Como por exemplo o co-piloto e a comissária de bordo que ajudaram Whip a pousar aquele avião e evitando uma tragédia muito maior. Onde ambos terão que passar por mais um desafio: no que dirão em seus depoimentos. Se irão contra seus próprios princípios, morais, éticos, ou se apoiarão na fé, e com isso vendo-o como um enviado de Deus naquele momento? Mas para os que não veem Whip como um Anjo da Guarda, verão que nele talento para pilotar fazia dele o número um.

E quanto a Whip? A quão tanto mais ele iria descer na tentativa de salvar a carreira? Qual seria a provação que o levaria a sair da vida do vício? Até porque precisaria de fato de um milagre para voltar a pilotar um avião comercial. De herói a vilão estava bem próximo. Mas ele mesmo que foi o vilão do seu talento. É muito triste quando o vício arruina a vida de uma pessoa. Whip tinha um preço à pagar! Um preço alto.

Para finalizar, além do Roteiro, Fotografia, a Trilha Sonora também fazem de “O Voo” um filme de querer rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Raul Seixas: O início, o fim e o meio (Raul Seixas, 2012)

É o melhor documentário já feito sobre a vida de uma pessoa pública. Saí do cinema sabendo sobre a vida do artista, entendendo o que eu pensava que já sabia antes e, azar o meu, se o filme não me fez compreender o que antes já era incompreendido: O que afinal caracteriza os geniais? A loucura? O inusitado? O Brasil abriga um incontável amontoado de talentos, alguns geniais, no entanto inverter a trajetória do nosso cometa, não depende de nós… Como brinde, o filme oferece muitas imagens bacanas, personagens e personalidades que fizeram parte da vida do compositor. O documentário passeia pela ditadura, tropicalismo, festivais. Raul Seixas não viveu, aconteceu! Colocou imagens e coração numa trilha sonora que já veio com ele, uma cena rock’n rol de 44 anos de duração. Raul em essência era sua própria sua música concreta nas melodias que embalam nossa realidade.
Era uma vez um homem, suas muitas mulheres e muitos vícios que se lhe deram prazer, afastaram-no da felicidade, essa felicidade careta que muitas vezes fazem nossos sonhos existirem por mais tempo. O vício em “todo tipo de droga, menos maconha  –  que de maconha ele não gostava” – com ênfase no álcool era a trilha para o final da linha para os romances de Raul, menos um: o seu  primeiro casamento com Edith, a namorada de adolescência . Esta, ao ser “abandonada” enquanto Raul ia ali até Brasília ficar com Glória, a irmã do seu guitarrista, foi embora, voltou para o seu país, levando a filha do casal e nunca mais esta família voltaria a se reunir. Raul passou a vida remoendo tristeza e arrependimento por este ato, por esta perda.

Ninguém conseguia acompanhá-lo nas suas intensidades ‘tóxicossociais’, nem mesmo o guru satânico que depois viraria mago, não sem antes lhe apresentar às maldições nas suas mais variadas formas. Fiquei a pensar na generosidade desse baiano magrelo que ensinou “o mago” a fazer letras de música e em troca, com ele aprendeu a se decompor biodegradavelmente em frascos e ácidos.

Raul era doce, duas de suas antigas esposas afirmam que ele tinha um cheiro doce. Uma fala de forma romântica a outra, objetivamente atribui o cheiro e o sabor à diabetes do músico. É fato que aquele homem nem tão belo assim, muito magro, cabeludo e bastante doido era tão verdadeiro no seu sentimento, que conseguia manter consensualmente romances simultâneos com suas “atuais” e “ex”. Nesses depoimentos  a platéia se acabava de rir… da situação dos triângulos amorosos consentidos pelas partes envolvidas. Como a caretice é prejudicial à felicidade que aparentemente preserva…

O documentário é muito comovente, rodado entre Bahia, Rio, São Paulo, Estados Unidos, Genebra. A equipe fez o trajeto da diáspora  Raulseixista. Mostra o fã dono do mítico baú e suas preciosas relíquias, que  se tornou amigo do astro, carregando-o embriagado quando era preciso sem perder a admiração. Descobrimos que o “Trem das Sete” teve uma dona e  hoje  é de todo aquele que acredita que amor, atestado de garantia e certificado de posse são as mesmas coisas…

Raul tem um neto que é sua xerox, mas o moleque mora no exterior e não falou sobre o avô, que pena. A filha mais velha tem mágoa do pai, não gravou depoimento, mas escreveu uma carta; a segunda filha é uma gracinha, mas é a filha “brasileira do Brasil” – as outras moram na América do Norte – que dá show de orgulho de ser filha do maluco beleza. Viu como o documentário é bom? É como uma reunião de amigos, parentes e agregados em torno da figura do mito tão trágico quanto divertido.

Saí do cinema aliviada com as palavras do Marcelo Nova: “Ele fez 50 shows! Morreu fazendo o que gostava, cantando! Não morreu esquecido, nem anônimo num quarto escuro”. Marcelo Nova: Parabéns! Obrigada! Mas e agora o que eu faço com a sensação de que não devo ser tão genial quanto pareço, porque não sei ir tão fundo naquilo que dá celebridade aos imortais? Ser careta é meu atestado de mediocridade? Fiquei me sentindo uma roqueira de subúrbio. Daquelas que assistem ao show pela TV da barraquinha de hot dog atrás do Madureira Shopping, que antes de sair de casa lava e passa a camiseta preta com frases em inglês… Se você entendeu que a celebridade dos imortais está nas drogas, esclareço:  O que dá celebridade aos geniais, é a coragem. Coragem de se arriscar e até de perder. Perder afeto, mulheres, a convivência com os filhos, ver os amigos virarem-lhe a cara e negar-lhe oportunidades. Por mais que digam que a vida é escolha, acredito que para escolher há que se ter opções e, onde estão elas quando não vemos o que escolhemos? O esforço pra ser “um sujeito normal e fazer tudo igual“ não é escolha. Aprender a ser louco é dom! Somos apenas criaturas seguindo o caminho que os olhos enxergam. Cumprimos nosso destino.

Com Claudio Roberto – Paulo Coelho – Marcelo Nova

Era destino de Raul seguir sua carência, se entristecer a vida inteira por um ato que não resultou no que ele possa ter imaginado. Sua incapacidade de viver só, sua pancreatite regada pelo álcool que ele nunca conseguiu deixar, ainda que tivesse conseguido parar com as drogas ilícitas. Sua falta de vontade de viver e a falta de crédito para que voltasse a gravar definharam sua saúde, mas nada disso se compara ao vigor da sua obra eternizada, passando de geração em geração ainda que muitas das suas mensagens não sejam imediatamente captadas, são seladas, carimbadas, se pra gente voar. O destino de Raul foi ganhar essa legião de tipos, diferentes dele e entre si. Em comum os olhos úmidos na saída do cinema, porque a gente viveu ao menos pelo tempo de uma música,  Raulzitamente.
Ah, a mim pareceu que e o Paulo Coelho matou a única mosca de Genebra…

Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things We Lost in the Fire. 2007)

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Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente“.

Assisti o filme por uma indicação, e gostei! Uma lida apenas na sinopse, talvez não o assistiria logo. Mas com o aval de quem me indicou foi que despertou a minha curiosidade de cinéfila. Até porque a tal sinopse não contava quase nada. Ou porque ao ver um nome por lá, me fez ficar desmotivada. Enfim, valeu mesmo ter assistido “Coisas que Perdemos pelo Caminho“! Só não sei se conseguirei omitir spoilers. Assim, se ainda não viu o filme, fica aqui a sugestão: Assista! O filme é muito bom! Depois então volte para uma troca de impressões.

Começo falando do título. De imediato, eu pensei em coisas que perdemos por displicência, por relapso… mas que sabemos que de uma hora para outra vai aparecer novamente. Mas assistindo o filme, claro que a perda principal fora por assassinato. Foi, e sem chances de voltar. Agora, com o desenrolar da história ficamos sabendo que há também a perda por… por preconceito!? Não! O termo seria outro. Por talvez criar uma barreira a aquilo que vai mexer com a rotina certinha da família. Ou dela própria. Uma atitude mais reacionária.

Entrando no filme. Um casal feliz, com um casal de filhos, voltam das férias ao lar doce lar. Antes da vida seguir a rotina normal – trabalho, escola… -, eis que o paizão, Brian (David Duchovny), sai para comprar sorvete para os filhos, à noite, e é baleado. Não por um assaltante, mas sim por um homem que batia violentamente numa mulher. Brian foi intervir. Parando para ajudar, para fazer um bem, terminou perdendo a vida. Então, em vez do maridão, Audrey (Halle Berry) recebe a polícia com a trágica notícia.

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Como citei no início, um nome não me motivava a assistir esse filme. O dessa atriz, Halle Berry. Até então, não gostava das suas interpretações. No que vi antes desse, “A Estranha Perfeita“, mais parecia uma cópia da Angelina Jolie. Para mim, faltava a ela uma performance visceral. Nesse ela está no caminho certo. Ela conseguiu passar dor, revolta, medo, frustração, raiva, comiseração, tristeza, desejo, serenidade… E por ela mesmo, sem me levar a pensar em outra atriz. Mais um ponto que me fez gostar desse filme.

Durante o velório lembra que tem que avisar alguém. Então seu irmão, Neal (Omar Benson Miller), vai buscar a tal pessoa. Ele é Jerry (Benicio Del Toro). Alguém muito especial para o Brian. Eram grandes amigos. Mas por ser um viciado seus encontros eram longe do seu sacrossanto lar. Na primeira fase do filme, paralelo ao velório e ao enterro, se tem os momentos que antecederam a morte do Brian. Ele teve tempo de comemorar o aniversário do Jerry. É quando vemos o carinho e a cumplicidade entre os dois. Algo que Audrey não entende. Até põe a culpa em Jerry pelo sumiço de um dinheiro dentro do carro do casal.

Ao descobrir o dinheiro caído entre os bancos do carro, a título de diminuir a sua culpa, o leva para morar num quarto ao lado da garagem. Agora, com o desenrolar da história, ela irá lidar com outros fantasmas seus. E Jerry será o seu saco de pancada.

Para o pequeno Harper (Alexis Llewellyn), a chegada de Brian fora uma benção, pois veio suprir a perda repentina do pai. Já para Dory (Micah Berry), já adolescente, há um misto de rejeição, receio de se apegar e haver uma nova perda, mas há um bem querer.

Durante o velório, o vizinho e amigo de Brian, Howard (John Carroll Lynch), primeiro se espanta em saber que Jerry também era amigo de Brian, por nunca tê-lo visto, nem tinha conhecimento dele. E mais um pouco ao saber que era um viciado. Mas o jeitão do Jerry, somado ao fato de ter sido especial para Brian, joga fora seus pensamentos, nascendo ali uma amizade. Muito embora, ambos não sabiam. Jerry apesar do vício, era uma pessoa cativante.

benicio-del-toro1Pausa para falar do Benicio Del Toro. Ele dá um um show de interpretação. E mais! Faz uma bela dobradinha com a Halle Berry. Não tira o brilho nem dela, nem dos demais com que contracena. Dá ao seu personagem um jeito meninão, mais de um modo que seduz a todos.

Enquanto com a morte de Brian, Jerry tenta se livrar das drogas, Audrey põe para fora todos os sentimentos. E através de falas que põe o dedo na ferida. Algumas me levavam a exclamar um ‘PQP! Por que isso agora, mulher!?‘ Noutras ficava num simples ‘Putz!‘. É! Por essas falas ela descarregava nele toda a sua revolta por ter perdido o seu grande amor. Por ser ele um inútil, viciado em drogas. Por descobrir que ele sabia tanto de tudo o que tinha acontecido com a sua família, de coisas que nem ela sabia. Por ele estar tomando o espaço do pai para seus filhos. Por ele estar vivenciando momentos que seriam do Brian. Enfim, a raiva maior dela foi ter descoberto que perdeu momentos por ter sido tão reacionária.

Antes do desfecho final se o Jerry não fosse tão especial teriam os dois arruinados suas vidas. No caso dele, teria sido a ruína de vez. A cada frase dura, proferida a Jerry, a enfraquecia mais. Audrey, ora o jogava num inferno, ora o tirava de lá. Uma fera ferida. Num momento de lucidez Jerry viu que precisava fazer algo por aquela família, mas que não conseguiria sozinho.

E no final… Bem, eles souberam que enterraram mais que o Brian. Que na vida há perdas irreparáveis, como também que há aquelas que se faz necessário “perder” para então seguir em frente sem cargas inúteis. Há realmente coisas que se deve abandonar pelo caminho. Que há também aquelas que um dia voltam renovadas. Para eles dois, foram pelo bem querer que o Brian deixou a seus entes queridos.

É um filme que deixou uma vontade de revê-lo um dia. Mas não o chamaria de filmaço. Nem daria uma nota máxima. Dou um 9.

Por: Valeria Miguez (Lella).

Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things We Lost in the Fire). 2007.  Reino Unido. Direção: Susanne Bier. Elenco: Halle Berry, Benicio Del Toro, David Duchovny, Alexis Llewellyn, Micah Berry, Alison Lohman, John Carroll Lynch, Omar Benson Miller. Gênero: Drama. Duração: 118 minutos.

O Informante (The Insider. 1999)

_Imprensa livre!? A imprensa é livre para os seus donos. Você ouve ‘razoável’ e ‘interferência ilícita’. Eu ouço ‘propensa a processos’. Ouço: ‘Parem o segmento. Dispensem o cara. Obedeçam ordens e fodam-se!’ . Ele é testemunha-chave no maior caso de reforma da saúde pública, talvez o maior, mais caro caso de conduta ilegal corporativa na história dos EUA. É ele quem está em apuros. E nós não vamos levá-lo ao ar porque ele está dizendo a verdade!?

O que é ético? Manter um acordo de confidencialidade com uma Empresa por algo nada ético que ela faz? O qual fora demitido por não concordar com tal coisa? Qual decisão tomar? Se também ao revelar poderá por em risco sua própria família porque irão jogar pesado. E o jornalista que lhe dá a chance de revelar no programa jornalístico de maior audiência e credibilidade, está apenas pensando no furo de reportagem? Mais, e quando vê que seus superiores recuaram, pressionados, como fica a sua palavra? Essas são só algumas das reflexões levantadas ao longo do filme. Desse sensacional filme!

Ano 1994. País EUA. No banco dos réus uma das indústrias que mata milhares de pessoas por ano – a Indústria do Tabaco. Mas não será tarefa fácil para dois grandes heróis nessa história real. É, “O Informante” é baseado numa história real, mas precisamente tirando-a de um artigo publicado. Talvez até para dar asas a imaginação em trechos que não tem como provar. Vendo o filme verão o quão influente é esse grupo conhecido como ‘Os Sete Anões‘.

Um desses heróis, é Jeffrey Wigand (Russell Crowe), um cientista conceituado na terceira maior empresa de tabaco dos Estados Unidos. Aliás era, pois fora demitido por não concordar com algo sujo, criminoso, com o uso de uma substância carcinógena no cigarro. Se antes, ao ser contratado, até numa posição de Vice-Presidente, seu currículo profissional fora o fator preponderante, ao tê-lo como possível delator, até seus pequenos deslizes na adolescência receberão uma carga maior numa campanha de difamação, de desmoralização, orquestrada pela Brown & Williamson. E como se isso não bastasse, pelo poder de influência que esse Grupo detém – até porque o vazamento atingirá todos – aplicam-lhe a Lei da Mordaça.

– É para isso servem os cigarros? Um dispositivo para entrega de nicotina. Coloque na boca, acenda e receba sua dose. Manipulam e ajustam a dose de nicotina, não adicionando nicotina artificialmente, mas aumentando o efeito da nicotina com o uso de elementos químicos como amoníaco?
–  O processo é conhecido como reforço do impacto. Mesmo sem aumentar a nicotina, obviamente a manipulam. Esta tecnologia é bastante usada, ciência do amoníaco. Permite que a nicotina seja absorvida mais rapidamente no pulmão, afetando assim o cérebro e o sistema nervoso central.

O outro herói dessa história é Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do programa jornalístico “60 Minutos“, da rede americana CBS. Um jornalista que difere dos demais por manter uma postura ética com quem ele coloca na poltrona para ser entrevistado pelo Mike Wallace (Christopher Plummer). Ciente também do vespeiro que iriam cutucar, ele se faz de advogado do diabo com Jeffrey por quase todo o tempo. Ora irônico, ora muito irritado, Lowell quer ganhar essa parada. Agora, o que leva seguir adiante? Sucesso na carreira? A luta será grande. Até Mike desistiu.

Então, você foi trabalhar no ramo do tabaco. Vindo de empresas onde a pesquisa e pensamento criativo são valores essenciais. Vai trabalhar com tabaco, que é uma cultura de vendas: comercializar e vender em grandes quantidades.

O filme é longo, mas prende a atenção o tempo todo. De eu já quase no final querer que não terminasse. Esse com certeza vou querer ver mais vezes.

O elenco está afinadíssimo! A trilha musical dá o tom certo!

Umas considerações finais eu o faço, e apenas baseado no filme, é sobre a atitude da esposa de Jeffrey (Diane Venora). Se ainda fosse pela integridade física das filhas, eu até entenderia. Mas a mim, pareceu que ela queria manter o mesmo padrão de vida.

Filmaço! Não deixem de ver!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Informante (The Insider). 1999. EUA. Direção e Roteiro: Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Colm Feore, Diane Venora, Bruce McGill. Gênero: Biografia, Drama, Thriller. Duração: 160 minutos. Baseado numa história real.

Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream. 2000)

requiem-for-a-dreamCreditar às drogas saídas para as suas frustrações. Tem quem acredite nisso.

Me senti mal após o filme. Custei mesmo a dormir. Não lembro no momento de um outro final de filme que me deixou assim tão “pesada”. (Não encontro outra palavra para traduzir essa sensação.) Para quem não conhece, ele aborda as drogas. Mas de um jeito tão real, que choca. E sem desmerecer em nenhum momento a inteligência de quem assiste. Porque não há pieguices, nem quer passar um aviso àqueles que entram nessa viagem de: “olha, é isso aí!”. Todos sabem. Confesso, que nunca entendi quem embarca nesse sonho. Poderia até por esse motivo ter ficado indiferente, mas não fiquei.

Entre os personagens principais, temos uma relação conflitante entre mãe e filho. Sara (Ellen Burstyn) parece que perdeu o bonde da história, ao ficar viúva. Não consegue impor limites ao seu filho (Jared Leto). Deixou-o ao léu. Enquanto passa a vida defronte a tv, sonhando com um dia de lá estar para mostrar a todos a sua fantasia: de que tem uma família feliz. É, de ilusão também se vive. Ou seria, de ilusão se sobrevive? Bem, se fosse apenas isso, de se projetar na tela da tv. Mas tem outros devaneios mais perigosos.

Harry, por sua vez, também sonha com o sucesso. Mas além de o querer rápido demais, o quer de maneira ilícita. Não estuda, nem trabalha e é viciado. Junto com o amigo Tyrone (Marlon Wayans) acreditam que podem ganhar muito dinheiro com as drogas? Mas como, se são grandes consumidores?

Uma quarta personagem nos faz lembrar de que de vez em quando em vez de serem notícias em colunas sociais, jovens de classe rica terminam por fazer parte das páginas policiais por se envolverem com marginais. O que será que vêem neles?

A dessa história ainda nos deixa mais incrédulos. Porque tem talento. Diferente do seu namorado que só sabe vampirizar os outros. Marion (Jenniffer Connelly) poderia ter seguido uma outra trilha. Ressentida por não receber o carinho, a atenção dos pais, procura por um outro colo, o de Harry. E por ele, conhece o inferno.

Todos parecem estar anestesiados para a vida. Vivendo fora do mundo real. E nem ao menos procuram fugir disso. Investem fundo nesse mundo ilusório. E pior, têm pressa.

A trilha musical é primorosa – dá o tom (tensão) perfeito nessa viagem. Essa tensão também é passada com os efeitos parecidos como videoclipe.

Sem esquecer que também o filme mostra as tais drogas lícitas. Com elas, o sonho de obter algo rapidamente. De se encaixar nos padrões estéticos. De acreditar e creditar nessas drogas suas angústias. As cenas com os médicos me deixaram pasma. Revoltou-me a desfaçatez com que prescrevem, como vendem uma ilusão da uma beleza estética num curto espaço de tempo.

No dicionário, requiem, latim, também significa repouso. Para quem assistir esse filme, está aí algo que não encontrará. Claro que, para quem embarca nessa viagem e no mundo real só o terá como num filme – numa ilusão; e sem limite de idade. Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream). 2000. EUA. Direção: Darren Aronofsky. Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans. Gênero: Crime, Drama. Duração: 102 minutos.