Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010Por Norma Emiliano.

A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente, e de uma jovem órfã (Allison) que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte. Alisson vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção. Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”. O cruzamento das histórias (casal e jovem prostituta) dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.

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Livro: O Advogado do Diabo, de Morris West, 1959

Se deve educar primeiro o coração depois a cabeça

Talvez muitos tenham deixado de ler influenciado apenas pelo título. Também não tem nada a ver com o filme americano. Abaixo segue uma sinopse oficial do livro. Agora, eu gostaria mesmo de deixar as minhas impressões de O Advogado do Diabo, de Morris West.

Na incredulidade, não existe pai, não existe relação. A gente não vem de parte alguma, não vai para parte alguma. Nossos atos mais nobres são destituídos de significado.”

Quando comecei a ler eu sabia o que representava o termo “advgado do diabo” para a Igreja Católica; e lendo a contra-capa do livro, à época, interessei-me. Confesso que não esperava tanto. É fascinante a história, e que segue num crescente até o final. Há uma passagem, logo no início, onde o padre Meredith se questiona, mais ou menos assim:

Como ele que foi um bandoleiro vai virar um santo, e eu que dediquei minha vida à igreja vou deixar minha vida em branco?“. Outra que também emociona é quando ele se sente traído por um Deus que dedicou-se tanto.

Pode até parecer que deste ponto em diante será um quase duelo de egos; que ressentimentos irão deixar a narrativa angustiante, pesada. Creiam! Dai para frente o desenrolar da história é um brinde a nossa sensibilidade! Investigando sobre Giácomo, Meredith fará um mergulho em si mesmo. E na vida que não viveu.

Quando não se sabe de onde virá a nossa próxima refeição, como é que se pode pensar ou preocupar-se com a situação de nossa alma? A fome não tem moral.”

A descoberta de novas sensações muito mais que novas emoções, nos levarão a viajar com ele. Quase que sentindo o mesmo prazer; o mesmo gozo. Uma em especial torna-se um grande convite. E não dá para buscar um refinamento numa palavra, porque nem aroma, nem fragância, nem muito menos perfume, terá o significado simples e especial para ele: cheiro. Sim, para ele que passou grande parte da vida mergulhado nos livros, de repente começar a sentir novos cheiros, inclusive, cheiro de mulher. E fica vislumbrado! Não! Não somente ele, mas a todos que se dispõe a ler esse livro.

Sinto a vida escoando-se de mim. Quando vem a dor, choro, mas não existe prece em meu pranto. Somente medo.

Esse livro entrou na minha lista “the best”. Leiam, não perderão a viagem!

Já houve uma adaptação para o Cinema, em 1977, “Des Teufels Advokat“, de Guy Green, com Roteiro do próprio Morris West. Mas bem que poderiam fazer uma versão mais recente. A história é excelente!

Como acontece com a maioria das pessoas bem educadas, não tinha defesa contra a grosseria dos outros.”

Sinopse: Na Calábria, sul da Itália, surge um culto não-oficial em torno da memória de Giacomo Nerone. Milagres são atribuídos ao eremita, que se tornou mártir ao ser assassinado pelos comunistas nos últimos dias da Segunda Guerra. O Bispo Valenta ordena uma profunda investigação no caso. Ficando a cargo do padre inglês Blaise Meredith. Um verdadeiro advogado do diabo, que tem a obrigação de encontrar e denunciar qualquer fato que possa impedir as santas honras sejam dadas a Giacomo. O protagonista se envolve numa trama rica em contradições e descobertas que chegam a modificar seu enfoque sobre a vida. Sem dúvida, quem o ler modificará seus prismas ou, no mínimo, ampliará os horizontes.

Advogado do Diabo = No contexto da Igreja Católica, um padre é designado para investigar se uma determinada pessoa considerada santa de fato é digna da beatitude que lhe é atribuída.

Um Panorama do Festival do Rio 2011 – parte 1

O Advogado do Viado (The Advocate for Fagdom) de Angélique Bosio não é um bom documentário mas abre um olhar para o bizarro e ousado trabalho de Bruce Labruce, autor dos explícitos “The Raspberry Reich” e “Hustler White”. John Water e Gus Van Sant colorem a arrastada sequência de depoimentos.

Alien Lésbica Solteira Procura (Codependent Lesbian Space Alien Seeks Same) de Madeleine Olnek é inacreditavelmente ruim e por ser concebido originalmente para ser um trash acaba por ter momentos engraçados e inusitados como a alienígena que passeia de chapeuzinho e tudo pela bucólica Coney Island.

A Árvore do Amor (Shanzha Shu Zhi Lian) de Zhang Yimou tem como pano de fundo a revolução cultural da China contando a chorosa e singela estória de amor de um jovem e casto casal separado por questões políticas no severo regime de Mao Tsé-Tung além de uma grave doença que arrebata o belo Sun.

Beleza (Skoonheid) de Oliver Hermanus relata os tormentos do abrutalhado e confuso François que se fica obcecado pelo filho de um velho amigo. O que poderia ser a “Morte em Veneza” dos tempos atuais se transforma num filme tão cruel que chega a ser desagradável com um estupro assustador e uma desconfortável cena de sexo grupal masculino que quebram o ritmo lento do filme prejudicado pela mão pesada do diretor.

Coney Island – O Último Verão (Coney Island (last Summer) de Marion Naccache não rende em suas imagens desinteressantes de um lugar tão decadente quanto encantador. Eu mesmo tenho em casa cenas registradas bem mais vibrantes de quando lá estive no final do século.

Inquietos (Restless) confirma Gus Van sant como um dos melhores diretores da atualidade. A delicadíssima estória de Annabel e Enoch que se encontram em funerais de desconhecidos por terem diferentes relações com a questão da morte rende uma paixão inesperada. O conforto emocionante que o filme dá a um tema que facilmente trilharia pelo caminho da pieguice surpreende. É Harold and Maude talentosamente revisitados na pele de Mia (que em momentos lembra a Farrow jovem) Wasikowska e Henry Hooper em um roteiro novo e encantador.

Contágio (Contagion) de Steven Soderbergh remete aos filmes-catástrofe dos anos 70 pelo clima assustador e elenco estelar (Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law, Marion Cotillard e Gwyneth Paltrow) enfrentando um vírus fatal que se espalha rapidamente a partir de uma viagem a Hong Kong. Antecipei-me e já tinha visto em Nova Iorque, mas vou ver de novo quando estrear.

Estivemos Aqui (We were here) de David Weissman começa com imagens de homens lindos e atraentes na São Francisco hedonista dos anos 70, cujo quadro muda rapidamente para um cenário de terror com a chegada de uma terrível doença que se instala até os dias de hoje. Triste e chocante até as lágrimas. As pausas embargadas e sofridas causadas pelas lembranças de um sobrevivente sugerem uma dor que nunca cicatrizará.

Shark Night 3D de David R. Ellis não merece qualquer crédito. É ruim de doer. Assisti também em Nova Iorque antes do festival. Fujam mais do que qualquer barbatana na praia.

Funkytown de Daniel Roby revive a era disco em Montreal quando o Canadá passa pelo Movimento Separatista de Quebec (há uma relação curiosa com o nosso “A Novela das 8”), mas o povo quer mesmo é se divertir no clube Starlight ao som dos hits da época. Um divertimento à parte foi assistir a película lá em cima na bucólica Santa Teresa com Paula. Comemos pastel de costela no famoso Mineiro e nos integramos ao clima intimista do lugar com direito a uma platéia “descolada”, regulagem personalizada do ar condicionado e observações engraçadas no banheiro improvisado (não jogue papel no vaso-risco de explosão!) e ótima projeção na sala mínima.

Martha Marcy May Marlene de Sean Durkin evoca as angústias do que uma experiência traumática pode provocar na mente humana a ponto de confundir o que se viveu com ilusões assustadoras. Este é o dilema de Martha, afastada após um período vivido numa seita religiosa cujo líder abusava das mulheres. Quando retorna à sociedade, ela enfrenta dificuldades de readaptação com o mundo real.

Capitães de Areia de Cecilia Amado é uma feliz adaptação do conhecido livro do avô Jorge. O elenco infantil é ágil e encantador e dá graça e vida ao bando de meninos delinquentes na Salvador dos anos 50 devastada pela miséria e varíola. O charme, a promiscuidade e o humor do grupo deslizam fácil num roteiro fluente que prende a atenção desde o início.

A Novela das Oito de Odilon Rocha teve sessão glamorosa no Odeon com o excelente elenco que inclui Claudia Ohana, Vanessa Giacomo e Mateus Solano (em tórrida cena homoerótica). A novela em questão é Dancin’ Days que em 1978 ameniza os efeitos do final da ditadura no Brasil. A trama é engenhosa e rende bons momentos com algumas quedas de ritmo, mas muita música boa da época incluindo a inesquecível abertura da novela com as frenéticas e o hit “A noite vai chegar” da ótima Lady Zu.

Teus Olhos Meus de Caio Sóh tem uma dupla de atores promissora: Emilio Dantas e Remo Rocha além dos veteranos Roberto Bomtempo e Paloma Duarte no apoio. Mas o roteiro batido, uma direção inexperiente e uma montagem quase desastrosa não salvam o filme de um amadorismo insustentável que pode interessar somente a um público gay específico.

Xica da Silva do Cacá Diegues foi um grande sucesso na década de 70 contando a estória da escrava que vira amante do contratador João Fernandes, incumbido pela coroa portuguesa de investigar as riquezas das Minas Gerais no século XVIII. A cópia restaurada rendeu uma sessão no Odeon com presença da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, do diretor e da própria Zezé Motta, bela como sempre. Não sei se cometi uma gafe quando inadvertidamente comentei com Wilson que o filme era bom, mas mal dirigido sem perceber a carequinha do Cacá Diegues que havia mudado de lugar e estava sentado logo a minha frente ao lado da ministra. Se ouviu o comentário, nunca vou saber.

Por Carlos Henry.

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

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A vida é uma história contada por loucos, cheia de som e de fúria, que nada significa.” (Macbeth – Cena V, Ato V)

Logo no início do filme me veio uma fala já ouvida tantas vezes: “Ruim com ele, pior sem ele!“. É! Ela é dita por uma escolha de tantas mulheres casadas. Por talvez terem medo da solidão, terminam fechando os olhos às puladas de cerca do marido. Mas também por ainda amá-lo como antes. Sem saber o que fazer ao certo, termina por afastá-lo de vez. Mais ainda há um outro fator que em muita das vezes acaba roubando toda a sua atenção: os filhos. Um filho é para somar a uma relação. Mas se a balança está pendendo toda para ele, mais a frente virá uma cobrança.

Em “Corações Perdidos” me deixei pensar no porque de um homem estando casado, e ainda amando sua esposa, teria uma amante cativa. Uma relação sem cobranças. Mantida há 4 anos. Onde tendo um único dia da semana para se encontrarem e transarem. Algo também estagnado. Sem paixão. Sem tesão pela vida por estarem vivos.

Assim conhecemos um pouco do casal Rileys: Doug Riley (James Gandolfini) e Lois (Melissa Leo). Que após a perda da única filha pareciam não ter mais um sentido na vida. Ambos, sentiam-se culpados. Lois por ter se intrometido demais na vida da filha. Doug pelo contrário, por ter ficado ausente demais.

Se uma morte os fez ficarem assim apenas sobrevivendo, uma outra leva Doug a acordar. Mas ainda sem saber que novo rumo vai dar a sua vida, aproveita uma viagem de trabalho para pelo menos ficar longe da esposa. Vai a uma Convenção Anual em Nova Orleans. E ali, em meio a rostos conhecidos, vendo todos fazendo tudo igual, Doug foge também dali.

Nessa fuga, até de si mesmo, Doug conhece uma jovem stripper. Ela é Mallory (Kristen Stewart). Alguém a quem o destino também lhe tirou algo caro: sua mãe. Levando-a a enfrentar às ruas bem cedo. Onde para sobreviver, coloca uma couraça em seu coração. Ainda não sabendo ao certo o que estava fazendo, Doug resolve cuidar de Mallory. Tentar dar a ela uma outra expectativa de vida. Mas Mallory não estava acostumada a gentilezas. Nem muito menos em ter um homem querendo apenas ser um pai. Que não queira transar com ela.

Doug então comunica a mulher que vai ficar em Nova Orleans. Vendo que estaria perdendo de vez o marido, Lois tenta vencer o pânico de sair de casa, e viaja até lá dirigindo um carro. Ela também estará acordando para a vida nesse longo trajeto. E será o contraponto na relação entre Doug e Mallory.

Entre fazer uma longa análise com esses três corações perdidos, o que levaria a spoilers, eu preferi traçar apenas um breve perfil e de como o destino levou suas vidas se cruzarem, e ter algum sentido. E com isso motivá-los a assistirem. Pois o filme é ótimo! Com atuações brilhantes!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010). Reino Unido / EUA. Direção: Jake Scott. Gênero: Drama. Duração: 110 Minutos.

Depois da Vida (After Life. 2009)

A cada dia de vida é também um de despedida. E.B.

After Life

Viver nada mais é que morrer a cada dia. Viver é para poucos. A única certeza da vida é a morte. Ninguém sabe o dia de amanhã. Para morrer, basta estar vivo. Está achando o assunto macabro? Quem aqui nunca ouviu ou pronunciou alguma dessas frases? Lembrei-me desse assunto após assistir ao filme After Life (Depois da Vida), que considero o mais instigante dos recém-lançados. Este ‘garimpei’ numa locadora. Há tempos uma história assim não mexia com o meu emocional, o último foi Império dos Sonhos de David Lynch. After Life é um thriller de terror psicológico. Um jeito despojado de contar uma história banal num formato poético e com pitadas de humor negro. O tema nada mais é que um assunto que está super na moda ultimamente no mundo da sétima arte: o que acontece depois que se morre? Existe vida após a morte? Vide Nosso Lar, Chico Xavier, Além da Vida (com Matt Damon) etc, entre outros em cartaz. É o primeiro longa da diretora e roteirista polonesa Agnieszka Wojtowicz-Vosloo que chegou ‘grande’, não deixando nenhuma dúvida para o que veio. O elenco foi cuidadosamente escolhido, contando com a talentosa Christina Ricci que me surpreendeu desde cedo em A Família Adams; o carisma de Liam Neeson no magistral filme A Lista de Schindler e os outros gabaritados, como Alfred Molina, Justin Long, Josh Charles e ainda Chandler Canterbury.

Depois da Vida é um filme inteligente e original. O mais intrigante do ano de 2010. O expectador sai da sessão sem saber o final. E vai discutir em rodas de amigos e cada um argumentará e defenderá seu ponto de vista e não se chegará a conclusão alguma. A dúvida persistirá. Vai se pensar neste filme por um longo período. Talvez chegue a um denominador comum guiado pelas pistas e sinais deixados no decorrer da história. Talvez predomine o bom senso. Mas será o final que de fato o diretor formulou para prevalecer? É uma obra aberta, não escancarada e depois de pronta não tem mais dono, pertencendo a quem se apossar dela, então posso resumir a história que em nada influenciará a quem ainda não assistiu, ou a parte que me pertence.

É a história da jovem Anna (Christina Ricci) que depois de sofrer um acidente de carro é levada para uma funerária local a fim de que seu corpo seja preparado para o velório. A partir daí coisas estranhas começam a acontecer. Ela parece estar viva. Morreu ou não morreu? Eis a questão. O agente funerário Eliot Deacon (Liam Neeson) pode ser um maníaco e a jovem estaria correndo risco de vida (?) e prestes a ser enterrada viva. É tudo verdade ou imaginação?

Confusa, e sentindo-se mais viva do que nunca, começa o drama e a agonia de Anna que enfrenta o diretor da funerária. Anna é (era) professora de ensino fundamental, e nesse dia, coisas estranhas acontecem com ela. O namorado, logo cedo na cama, percebe que ela não estava bem. Ambos vão para o trabalho e combinam de sair para jantar nessa noite. Nesse mesmo dia, após o trabalho, Anna vai à funerária para o velório de um amigo. Lá ela percebe que o defunto se mexe. Seria imaginação dela? Depois Anna resolve passar num salão de cabeleireiro para mudar radicalmente o visual, substituindo o tom escuro dos cabelos para um vermelho vivo. No meio do jantar, o seu noivo decide fazer duas surpresas: entregando-lhe um anel como pedido de casamento e informando que fora promovido e que seria transferido para outra cidade e ela deveria acompanhá-lo nessa mudança. No meio da conversa nesse jantar, Anna entende tudo errado, o casal discute no restaurante, e ela nervosa, sai desesperada, dirige em alta velocidade e acaba sofrendo um acidente. Somente a família é avisada e Paul, o noivo, por enquanto nada sabe.

Paul estranha que nessa noite sua noiva não voltou para casa, nem fazia idéia que nesse momento ela já se encontrava numa funerária. A mãe de Anna vai à funerária e decide enterrar sua filha dois dias depois do ocorrido. Lá começa algo sobrenatural entre a morta (?) e o diretor da mesma. Eliot prepara a moça para o funeral e a partir daí é com o expectador, e começa a viagem entre o estar ou não vivo/morto. Anna não acredita estar morta, apesar de o diretor da casa funerária lhe garantir que ela se encontra numa fase de transição para o “pós-vida”. Anna pergunta como ela pode estar morta se está conversando com ele. E ele lhe responde que tem a capacidade de conversar com os mortos. Afinal, quem está enganando quem? Anna tem certeza que não morreu. O agente funerário lhe aplica uma injeção e inventa uma história dizendo que é para o cadáver estar apresentável no velório. O expectador poderá transitar nessa história entre a verdade e a mentira; morte e vida, natural e sobrenatural algumas vezes. Há situações dando a atender que ela está viva: em um momento, Anna fica sozinha e Eliot esquece a chave da sala lá, e ela tenta sair, mas a chave quebra, e ele, o diretor da funerária, quando descobre que a esqueceu, volta desesperado para lá e sente-se aliviado por saber que ela não conseguiu sair. É uma aventura e tanto desvendar esse mistério, não acha?

A diretora magistralmente desconstrói o gênero terror, e sob uma nova ótica, num exercício elegante e excitante brinca, criativamente, com a metalinguagem. Brinca também com o expectador e inova com as convenções cinematográficas. Reorganiza os signos lingüísticos e seus significantes e significados de Morte, Pós-Morte e Vida. Caríssimo, conhece aquela outra frase “Tem muita gente que já morreu andando por aí e não sabe.”? Pois então, o expectador sai meio angustiado da sessão, também pelas dúvidas que inconscientemente são plantadas na mente. Além de tentar descobrir o que aconteceu com a personagem terá que descobrir o que acontece consigo mesmo. Talvez você se pergunte será que estou vivo? É bom estar vivo? Eu quero estar vivo? Ainda bem que estou vivo? Eu morri? Eu morri e não sei? Isso tudo não passa de brincadeira de mau gosto? Só se pensa na própria morte quando alguém próximo morre. Vai querer resolver isso num divã. Diria que é novo formato de narrar o sobrenatural, em poético-dramática sacudindo o “da poltrona” a fim de despertá-lo para a vida e para todas as reflexões possíveis, sobre a grande arte de se viver.

Há várias pistas para o expectador tentar desvendar o mistério que paira sobre After Life, entre estar vivo ou não, a protagonista morreu ou não? Decifre, se for capaz! Quando Anna está finalmente preparada para que velem o seu corpo, Eliot, pergunta-lhe se ela deseja sair para a vida ou continuar lá. Agora é com você, leitor, se quiser descobrir o final da história, não deixe de assistir.

Excepcional. Realmente cinema é a maior diversão. Psiu! Ei, você aí que está vivo, não deixe de testemunhar esta história!
Karenina Rostov

Agradecimento: Tiago Soares – Criador do desenho acima
*

Sinopse: Após sofrer um terrível acidente de trânsito, Anna (Christina Ricci) desperta sobre a mesa de trabalho de uma funerária. Eliot Deacon (Liam Neeson), o diretor do local fala que ela não está viva, mas que se encontra na transição entre a vida e a morte e que ele pode falar com ela porque tem a capacidade de se comunicar com os mortos. Assim, ele é o único que pode lhe oferecer ajuda. Paul (Justin Long), o noivo de Anna, sente que algo não vai bem e tem a percepção de que alguma coisa estranha acontece na funerária onde o corpo de sua noiva está sendo preparado para o funeral.

Título Original: Além da Vida

Gênero: Suspense / Thriller / Drama

Direção: Agnieszka Wojtowicz-Vosloo

Elenco: Liam Neeson, Christina Ricci, Celia Weston, Justin Long, Chandler Canterbury, Luz Alexandra Ramos

Ano de Produção: 2009

Lançamento Dezembro: 2010

Origem: EUA

Duração: 104 minutos

Um Sonho Dentro de Um Sonho (Slipstream. 2007)

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Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aqueles que sonham apenas à noite. Tudo o que vemos não passa de um sonho dentro de um sonho.” (Edgar Allan Poe)

Antes, fui procurar pelo significado do título original: Splistream. O termo surgiu em 1989. O autor, Bruce Sterling, disse que é um tipo de linguagem que causa estranheza. Ela ultrapassa os limites dos gêneros convencionais. Nesse filme, há um mergulho na mente de uma pessoa. Onde outras pessoas entram junto com ele em sua própria Matrix. Como na canção do filme:

Um Sonho Dentro de Um Sonho‘ é daqueles filmes que vem como em peças de um quebra-cabeça para então chegar ao quadro final. Tal qual ‘Amnésia‘. Uma das peças está no comecinho: no que Bette (Fionnula Flanagan) diz a alguém num telefonema.

Com o final… Bem, fiquei pensando em como faria o texto. Se evitaria trazer spoilers, e com isso não tirar-lhes a surpresa. Acontece que o personagem principal, Felix Bonhoeffer (Anthony Hopkins), me motivou a falar mais… Então, fica o aviso: Se ainda não viu ‘Um Sonho Dentro de Um Sonho‘ pare por aqui. Assista, pois o filme vale muito a pena ser visto. Não apenas por essa nova linguagem, como também pelo prazer de ver Anthony Hopkins atuando. Ele, e outros mais como: Christian Slater (Ray), Michael Clarke Duncan (Mort)… Depois, venha trocar impressões.

Novamente: daqui em diante o texto poderá conter spoilers.

Dizem que na iminência de uma morte passa um filme na nossa cabeça. Sendo de fatos vivenciados, pode ser porque deixaram algo pendente. Algo como no filme ‘Ao Entardecer‘. Agora, o que passaria nessas horas pela mente sendo essa pessoa um Roteirista? Para alguém bem antenado, até com fatos históricos mais recentes, juntariam também as histórias criadas em seus Roteiros?

Fora a essa nova ferramenta, slipstream… Por conta da idade avançada do personagem poderia também ser visto como um início de senilidade. Digo isso sem nenhum preconceito, pois sei que muitos escritores continuam escrevendo numa velhice bem avançada. Como também que um período de bloqueio criativo até um muito mais jovem pode passar por isso. Usei o termo por não ser a minha praia doenças de fundo psíquico. Já que os personagens povoam seu sono, sonho, pensamentos… Até porque mesmo durante os sonhos há um momento já com alguma consciência do que está acontecendo ao redor, antes mesmo de estar plenamente acordado. Surreal ou não Felix está vendo todos eles…

Assim, alternando sonhos e realidade, Felix tenta dar uma sequência coerente ao seu mais recente trabalho. Continuar um Roteiro cuja montagem já estava em andamento. Agora, no real ou no que estava em sua mente? Qual parte estaria de fato acontecendo? Qual seria a trama principal? Quem são de fato os atores e a equipe de filmagem? Por que abreviou a morte do ator? Quem era de fato o autor do Roteiro abandonado? Que influência teria o novo Roteirista nesse contexto? Afinal, a história não era dele, ou melhor, não era fruto da imaginação de outra pessoa?

Agora, por que começariam a encenar uma história sem um roteiro pronto? O que nos leva a pensar na vida, na que estamos nela. Escrevendo a cada momento. Atuando, dirigindo. Ora, protagonista. Ora, coadjuvante; como por exemplo, quando estamos ajudando outras pessoas.

Essas são algumas das peças do quebra-cabeça. Com isso, deixa uma vontade de revê-lo, para desvendar todo o mistério. Ou não, já que o gênero não veio para deixar tudo certinho. E nesse nosso roteiro o the end virá quando a morte chegar.

Não deixem de ver. Um ótimo filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Sonho Dentro de um Sonho (Slipstream). 2007. EUA. Direção e Roteiro: Anthony Hopkins. Elenco. Gênero: Comédia, Drama, Fantasia, Sci-Fi. Duração: 97 minutos.