L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (2011)

A película “L’Apollonide – Souvenirs de la maison close” de Bertrand Bonello que se passa num prostíbulo francês de luxo na chegada do século XX não é definitivamente um filme para todos. Apesar da beleza plástica extraordinária sustentada por uma produção de arte incontestável, o roteiro, sem grandes surpresas ou reviravoltas, tem um ritmo lento e uma minuciosa construção de personagens que afastam os espectadores de hoje, ávidos por soluções rápidas e sequências vertiginosas de velocidade estonteante.

Com o olhar de quem aprecia uma obra de arte, o filme pode ser saboreado como uma peça rara recheada da nudez renascentista de mulheres aprisionadas num claustro erótico comandado pelo dinheiro e poder masculinos. No meio da rotina triste do estabelecimento há um punhado de cenas, que congeladas e impressas se transformariam rapidamente em pinturas memoráveis.

A melancolia que impregna o trabalho daquelas mulheres é sintetizada no sorriso rasgado à força e nas lágrimas de sêmen de uma das personagens num conjunto de imagens tão chocantes quanto comoventes e que dificilmente serão esquecidas.

Sob o olhar lânguido da pantera que visita o local, o sofrimento de doenças, violência e preconceito desta classe estigmatizada atinge os dias de hoje numa transição de tempo brilhantemente solucionada no desfecho deste filme singular.

Por Carlos Henry.

L’Apollonide – Os Amores Da Casa De Tolerância (L’Apollonide – Souvenirs de la Maison Close. 2011). França. Direção e Roteiro: Bertrand Bonello. Elenco: Hafsia Herzi (Samira), Céline Sallette (Clotilde), Jasmine Trinca (Julie), Adele Haenel (Léa), Alice Barnole (Madeleine), Iliana Zabeth (Pauline), Noémie Lvovsky (Marie-France), Xavier Beauvois, Louis-Do de Lencquesaing, Esther Garrel, Jacques Nolot. Gênero: Drama. Duração: 122 minutos. Censura: 16 anos.

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A Condenação (Conviction. 2010)

A história em si foi o que me motivou mais a ver esse filme. Em conhecer essa mulher que lutou por anos tentando inocentar o irmão. Já imaginando que com isso ela deixaria outras vidas à margem. Mais do que um amor fraternal, haveria um amor maternal dentro de si. Mas e para os próprios filhos, eles ficariam mesmo de lado durante essa missão? Lugar comum ou não, há no coração de uma mãe o se doar mais ao filho que tem mais chance de sair do caminho. O que tem uma mente mais suscetível as tentações da vida. Como na Parábola, essa irmã/mãezona vai em busca da ovelha desgarrada.

O título original é perfeito, pois se não tivesse tanta convicção da inocência do irmão o mesmo iria apodrecer na prisão.

Em ‘A Condenação’ a história é dessa personagem – Betty Anne Waters -, muito bem interpretada por Hilary Swank. Nossa! Tem hora de desejar que o irmão seja mesmo inocente por causa dela. E que quando entra em cena a personalidade do irmão… Essa convicção ganha uma oitava maior. Bravo Betty Anne!

Sam Rockwell é quem faz o Kenny, o irmão de Betty. Nossa! Ele quase rouba todas as cenas. Perfeito no papel! Talvez por conta de sua performance que no Brasil escolheram como título “A Condenação“. Com o desenrolar da história Kenny me fez pensar no personagem de River Phoenix do filme “Conta Comigo” (Stand by Me. 1986). Por conta de um temperamento instável, por vezes bem agressivo, fica mais fácil de induzir a todos que acreditem na culpa dele. Que o condenem mesmo sendo inocente.

O filme é longo, mas não perde o ritmo, como também deixa um querer ver de novo pelo menos até o julgamento onde condenaram Kenny por assassinato em primeiro grau. Onde mulheres se voltaram contra ele em testemunho, além de uma policial, Nancy Taylor, tentando mostrar serviço. Papel esse interpretado por Melissa Leo. Perfeita. Uma das mulheres que testemunhou que fora ele o assassino é interpretada por Juliette Lewis. Meio irreconhecível, mas também perfeita. Essas duas, mais a mãe da filha de Kenny, conseguem nos transmitir indignação pelo o que fizeram. E com isso das atrizes merecerem aplausos pela performance.

A Condenação” começa num tempo próximo ao presente da história. Em flashback conhecemos um pouco desde a infância desses dois irmãos. Dos dois, mesmo sendo Betty a caçula, há nela a força de salvaguardar o irmão. São arteiros os dois, mas com o temperamento pavio curto dele, e a falta de paciência dos adultos, Kenny cresce com a fama de bad boy. Com isso num local pequeno o “Recolham os suspeitos de sempre!” Kenny é sempre indiciado.

Voltando a falar do amor maternal… A mãe de Betty e Kenny praticamente só os trouxera ao mundo. O que aumenta em Betty o amor até como proteger o irmão. Mais tarde com o primeiro filho Betty chega a dizer que nunca seria como a mãe dela foi. Mas com a condenação do irmão, mesmo estando sob o mesmo teto com seus filhos, mesmo tentando ser presente na vida deles, era como se estivesse ausente. Seus filhos foram crescendo vendo a mãe com o tio dominando seus pensamentos e atos. Ela até voltou aos estudos. Queria muito cursar Direito, ser advogada, e tentar achar um jeito de inocentar o irmão. Por tudo isso, não tem como julgá-la negativamente. O máximo seria em se perguntar se faríamos o mesmo ou não. Mas há mais reflexões. Tanto dos filhos da Betty com ela. Como de quem seria Kenny se não fosse o amor da irmã.

A condenação do irmão acontece em 1983. De lá para cá a ciência evoluiu fazendo com que as Leis se adequasse em aceitar novos meios de se provar algo. Era uma nova porta que se abria. Mas… Outros obstáculos pareciam não evoluir. Admitir que errara, era um deles.

Betty fora o tempo todo incansável. Só se deixou abater por causa de um motivo. Que lhe quebrantou sua alma. Por sorte o destino colocara em sua vida uma amiga de verdade: Abra Rice. Mais uma magistral interpretação nesse filme, e de Minnie Driver. Pois é! Como se não bastassem tantos temas abordados nesse filme, ele nos presenteia com essa linda história de amizade. Abra entra na vida de Betty como uma lufada da brisa da manhã. Traz vida nova! É daquela que diz a verdade com convicção de que o faz por gostar, por querer bem, a amiga. Abra nos mostra que amizade como a dela está ficando mais raro. Pois muitos só querem amigos para massagear o ego.

Por tudo isso, e muito mais que eu dou Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Condenação (Conviction. 2010). EUA. Direção: Tony Goldwyn. Roteiro: Pamela Gray. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado em fatos reais.

O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer. 2011)

A advocacia é a maneira legal de burlar a Justiça.”

Eu gosto de filmes cuja temática gira em torno de Tribunais, sem nem me preocupar se com atores conhecidos ou não. Esse, “O Poder e a Lei“, ambos os títulos, o original e o dado no Brasil, me deixou mais ainda interessada. Com uma lida numa sinopse, fechou! E não me decepcionei! Acompanhei atenta toda a trama. O filme é muito bom! A dúvida ficou se escreveria com ou sem spoilers. Por conta de algo nele, mas que pende mais para um viés psicológico. Muito embora o que eu deixaria no ar seria a minha dúvida, até porque isso não é a minha praia. Enfim…

Quem seria o advogado dono do Lincoln preto? Ele é Michael Haller, personagem do Matthew McConaughey. A quem eu daria um 8. Sua atuação convenceu, mas me fez pensar se um outro ator faria um Haller memorável. Creio que quem ficará mais tempo na memória será o motorista Earl (Laurence Mason). Fizeram uma dobradinha ótima esses dois. Ops! Os três, já que o Lincoln preto também conta. O carro era o QG do Advogado. Seu escritório volante. Numa cidade grande, e de tantos contrastes sociais, ele não podia perder tempo.

Pagando bem, ele aceitava o caso. Não importando se inocente ou não. Para ele quem deveria se preocupar com isso, seria a Promotoria. Não era bem quisto entre os Detetives da Polícia, mas com o escalão mais baixo, sim. Até por conta de pagar pelos préstimos. Ele sabia usar o Sistema. Na gíria: era alguém safo! Teve um reconhecimento de Earl ao dizer que ele se daria bem na rua. E ele já se considerava nela. O lincoln preto era uma ponte que o ligava a mundos distintos. Também por lhe dar uma certa fachada, para não se passar por um mero advogado porta-de-cadeia.

Tudo seguia a sua rotina, até que alguém do andar de cima precisou de seus serviços. Numa de um favor levar a outro, foi o primeiro passo para não perceber que estava entrando numa cilada. O novo cliente era um jovem milionário preso por estupro e agressão a uma jovem. Ele, Louis Roulet (Ryan Philippe), alega inocência, como também diz ser vítima de uma armação.

Haller que julgara estar diante de um caso fácil segue não prestando atenção aos pequenos sinais. Só acordando quando alguém muito estimado é assassinado. Mais! Colocando-o como principal suspeito. Sendo obrigado a inocentar Louis, Haller começa a se questionar. Mas essa crise de consciência terá que ser direcionada: tirar dos erros a chave do mistério.

Mais do que tentar também descobrir o que está acontecendo com ele, deixo uma sugestão. A de prestar atenção nos desdobramentos entre Haller e os agentes da Lei. Se o Sistema está corrompido, parte dele pode ajudar a consertar as falhas. Compliquei? É por não querer estragar a surpresa de vocês.

As demais atuações também convencem. Destaco uma, a de William H. Macy. Com cabelos compridos, perdeu um esteriótipo de loser, algo comum a vários papéis que fez. Bem, mais um destaque, e para os rapazes, terão um belo colírio: Marisa Tomei.

Para finalizar, a Trilha Sonora é uma ótima coadjuvante. E resolvi levar a minha dúvida diretamente aos da área psico já que transpareceria um grande spoiler. Assim feito! Fica a sugestão: não deixem de ver o filme “O Poder e a Lei“. É muito bom!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer. 2011). EUA. Direção: Brad Furman. +Elenco. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 119 Minutos. Baseado em livro de Michael Connelly.

À Prova de Morte (Death Proof. 2007)

O fenômeno “Grindhouse” da década de 70 também aportou por aqui sob o título de “Cinema Poeira”. Tratava-se da sessão dupla de filmes de qualidade duvidosa (No Brasil, costumava ser um faroeste com uma pornochanchada ou um terror) em cinemas decadentes.

Este filme notável de Quentin Tarantino – À Prova da Morte -, cujo egocentrismo e arrogância parece prejudicar aos poucos sua carreira, traz de volta a estética nostálgica daquelas películas deliciosas cheias de saltos, riscos e imperfeições na tela.

Lançado originalmente numa versão mais enxuta em dobradinha com “Planeta Terror”, o projeto “Grindhouse “ não deu certo naquele formato ousado e o filme chega solitário e com bastante atraso em seus longos e necessários 113 minutos recheados de sarcasmo, sangue, erotismo e cinema em sua essência.

A estória centrada no personagem psicopata de Kurt Russell (Stuntman Mike) que se diverte matando mulheres gostosas com a ajuda de seu poderoso e velho carro à prova de morte é habilmente dividida em duas partes. A verborragia excessiva pode até chatear em alguns momentos menos brilhantes da primeira metade, mas é marca registrada do diretor e prepara o expectador paciente para um epílogo eletrizante na estrada onde o mal encarnado em Mike encontra a dublê (de verdade) Zoe Bell e suas amigas numa batalha feroz e imperdível, sem espaço para sutilezas ou amenidades.

Carlos Henry

À Prova de Morte (Death Proof). 2007. EUA. Direção e Roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Rose McGowan, Marley Shelton, Mary Elizabeth Winstead, Sydney Tamiia Poitier, Zoë Bell, Eli Roth. Gênero: Ação, Crime, Thriller. Duração: 114 minutos.